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Fazenda Atalaia

Permita uma palavra antes da introdução

Aqui você vai fazer uma pequena, mas deliciosa, viagem no tempo. Eu tomei a liberdade de colocar aqui fatos que dizem muito para minha família. Espero que você também ache interessante. Estes fatos abaixo contam um pouco da história da formação desta maravilha que é o nosso Brasil, São Paulo precisamente, feito com a bravura e vontade de nossos (os meus e os seus, prezado leitor) antepassados. O texto abaixo é muito gostoso e espero sua opinião no final dele. Alguns fatos e datas ainda estamos tentando levantar nas memórias........

Boa leitura,

Marcelo

O texto a seguir foi escrito por Joaquim Francisco Malheiro de Camargo Lima.

INTRODUÇÃO

Esse trabalho, uma iniciativa pioneira do Camargo e reorganizado por Joaquim (atuais proprietários junto com Mira), conta a história da formação da Fazenda Atalaia e procura situá-la no contexto da história da ocupação do Sertão Paulista (séc. XVIII e XIX).

Procuramos reunir nomes, acontecimentos e empreendimentos públicos que de um forma ou outra, no tempo, participaram direta ou indiretamente da formação da Fazenda.

Os elementos coligados passam pelos séculos XVIII, XIX e XX.

Destacamos em algum ponto a utilização do transporte fluvial, sua conexão com as pontas de trilhos das estradas de ferro e as dificuldades que foram encontradas  junto aos índios, para o ocupação das terras do sertão na região entre Rio Paranapanema, Rio Paraná e Rio Tietê. Destacamos a utilização do Rio Mogi Guaçu para transporte de cargas e passageiros entre Rincão e Porto Ferreira e portanto, um dos escoadores da produção da região.

Reunimos alguns elementos sobre as cidades mais próximas de Santa Lúcia e Américo Brasiliense que, assim como Santa Lúcia, provieram da Sesmaria das Almas e do Rancho Queimado.

O porto utilizado no rio Mogi Guaçu está localizado onde hoje é a cidade de Guatapará.

TERMOS E SEUS SIGNIFICADOS

Capitânia: Para facilitar a colonização de Terras desconhecidas e para entrar na posse, essas terras eram divididas em Capitânias. São divisões territoriais.

Sesmaria: Era o nome que se dava às doações de terras que se achavam incultas ou abandonadas. A Coroa dava essas Terras de “Sesmaria” ou permitia que as Câmaras as dessem, pagando o sesmeiro (o que as ficava possuindo) a sexta parte dos frutos. A esta sexta parte chamava-se primeiramente a sesma, e depois o sesmo (o sexto). A legislação que os orientava foi criada por D. Fernando I e no Brasil principalmente D.João I. A denominação de Terras de sesmo era aplicada não só a que já estava cultivada (de Sesmaria), como a igualmente inculta , doada.

Sesmeiro: O que tem a seu cargo as Sesmarias, ou o que as distribui.

Freguezia: Denominação  que se dava às primeiras formações comerciais, armazéns, que ficavam próximos às fazendas e sítios que estavam sendo formados.

A REGIÃO DE ARARAQUARA E ALGUMAS DAS SUAS SESMARIAS

Na época da Capitânia de São Vicente, as terras, onde hoje fica o Município de Araraquara, eram dominadas pelos índios Guayanás.

O nome Araraquara é originado de Araquara, Aracoara – “ara” = dia, “coara” = morada. Morada do dia – Morada do Sol.

“Araquara” era toda a região representada por imenso sertão desconhecido que se avistava da cachoeira do Banharão, no rio Tietê, caminho dos bandeirantes em viagens para Cuyabá.

Na época de D.José I, na administração do Marquês de Pombal, a Capitânia de São Vicente começou a expansão pelo interior.

Até o começo do século XVIII o desenvolvimento da Capitânia de São Vicente era muito pequeno.

Na 1ª metade desse século surgiram Mogy Mirim e Campinas (São Carlos).

Da segunda metade do século XVIII datam as primeiras incursões aos Campos de Araraquara.

A expressão sertões de Araraquara abrangia a zona ocupada hoje, pelos Municípios de Rio Claro, Descalvado, São Carlos, Brotas, Araraquara e etc.... A povoação de Araraquara só foi fundada no século XIX.

Quanto à ocupação das terras consta que em 1790, Pedro José Netto, mineiro de Ouro Preto, fugido de Itú, e explorando os campos de Araraquara estabeleceu as freguezias de Ouro, Rancho Queimado, Cruzes, Lageado, Cambuhy e Monte Alegre. Mais tarde vendeu a maior parte das terras que possuía.

Conhecidos pelos primeiros exploradores-agricultores, a excelência das terras da Região de Rio Claro, São Carlos e Araraquara, muitos cidadãos de São Paulo, Parnahyba, Itú e Porto Feliz, homens ricos e de prestígio perante o governador da Capitânia de São Paulo, foram adquirindo posses feitas, ou sem estas, obtinham concessões de áreas imensas de Território inculto (período de 1775 – 1782).

O então governador da Capitânia de São Paulo, Martins Lopes Lobo de Saldanha, atendendo a requerência do *cirurgião-mor do Regimento de Voluntários Reais de São Paulo, Manoel Martins Dos Santos Rego, concedeu-lhe uma Sesmaria nos Sertões de Araraquara (Sesmaria do Pinhal).

Logo depois este vendeu ao Capitão Bartholomeu de Arruda, da vila de Itú, em 30 de março de 1786.

Em 22 de agosto de 1817 foi criada a Freguezia de São Bento de Araraquara, subordinada a Vila de Itú. Foi elevada à Villa em 10 de julho de 1832 e à cidade em 6 de fevereiro de 1889.

Em 1812 começaram as divisões oficiais das terras, com a utilização de Títulos e de Cartas de Sesmaria.

O Padre Joaquim Duarte Novaes ficou oficialmente com Várzea do Chibarro, Ouro, Cruzes e Rancho Queimado.

Dª. Francisca Pinto Ferraz, em 1815 tirou a Sesmaria do Baguassú, depois propriedade do Cel. José Pinto Ferraz.

Em 1819, Francisco de Lima tirou a Sesmaria do Laranjal, e o Capitão Antônio Soares de Barros a Sesmaria das Almas.

Em 1836 / 1837 Luís Caetano de Sampaio, mineiro de Ouro Preto, comprou a fazenda “Boa Vista das Almas”.

A Sesmaria do Rancho Queimado foi comprada em 1854 por Dª. Veridiana Duarte Moraes, freira do convento de Itú. Residia na fazenda Anhumas.

Clementino Xavier Machado, abriu a fazenda Cruzeiro, que ficou vizinha à futura povoação de Santa Lúcia, em terras da  Sesmaria das Almas.

O sítio Atalaya foi aberto pelo Capitão Cândido Mariano Borba.

SITUAÇÃO GEOGRÁFICA

As terras que Cândido M. Borba tinha comprado ficavam dentro da Fazenda Boa Vista das Almas cujas divisas estavam acertadas conforme mapa elaborado pelo cartógrafo diplomado e calígrafo formado, Rubens Borba Abreu e Moraes, em 20/10/1923. Deve ter sido elaborado com escrituras dos donos das terras que relaciona-se a seguir:

Cândido Mariano Borba; Luiz Bernardo Pinto de Ferraz; Herdeiros do finado José Belisário de Carvalho; (Francisco Paulo e Genoveva). Joaquim Duarte Pinto Ferraz; Francisco de Arruda; José Fernandes de Abreu; Joaquim de Carvalho; Epiphânio Luiz Pimentel; Sebastião Domingos da Silva; (existem outros nomes que não foram listados). 

A fazenda confrontava com: Terras da Fazendas Rincão; Terras da Fazenda do Rancho Queimado.

O FORMADOR DA FAZENDA ATALAIA

Cândido Mariano Borba, natural de São Paulo, era filho de Joaquim Borba e de Maria Rita da Silva Borba, que casaram-se em mais ou menos 1854.

Moravam numa chácara de sua propriedade em São Paulo, que ficava onde era o Cine Metro na Av. São João.

Foi nomeado por D. Pedro II, coletor de Rendas Gerais e Provinciais para a Vila de Araraquara e o 1º juiz de paz de Araraquara.

Saiu de São Paulo em 13/09/1858 e chegou a Araraquara em 04/10/1858. Levou 21 dias a cavalo.

Veio com a mulher e um filho, João Borba, que tinha mais ou menos 4 anos naquela época.

Assumiu a cargo no dia 11/10/1858.

Depois que se estabeleceu em Araraquara, abriu uma loja de fazendas e mais tarde comprou a titulação de uma área de 199 alqueires dentro da fazenda da Sesmaria das Almas, mais detalhadamente Fazenda Boa Vista das Almas, e pediu exoneração do cargo. Chamou as terras de Sítio Atalaia. (8:820.346$000 réis)

Tinha então 2 filhos: João Borba e Maria Angélica Borba, que foi casada com Rodolpho Augusto de Moura.

Faleceu em 29/12/1874.

Após sua morte o Sítio Atalaia foi dividido entre seus filhos.

João Borba no ano do falecimento do pai estava aprendendo engenharia nos Estados Unidos, tendo interrompido os estudos para vir para cá.

SUCESSORES DE CÂNDIDO MARIANO BORBA

João Borba, nasceu em São Paulo em 18/03/1856, (1854?). Veio para Araraquara com seus pais em 04/10/1858.

Seus primeiros estudos foram no colégio Ipiranga, em 1870, Araraquara.

Esse colégio foi um dos primeiros colégios provinciais e ficava na R. Gonçalves Dias esquina com Av. Itália.

Em 1874 foi para os Estados Unidos estudar engenharia, curso que foi interrompido pela morte de seu pai.

Voltou ao Brasil e começou a plantar café em toda área do sítio.

Em 1887 fizeram a partilha da (fazenda) do Sítio Atalaia ficando: João Borba com 129 alqueires que continuou chamando-se Sítio Atalaia; O cunhado, Rodolpho Augusto de Moura com 70 alqueires, que passou a chamar-se Fazenda Santa Maria.

A sede do Sítio Atalaia é onde está hoje. A sede da Santa Maria foi construída em outro local onde existem até resquícios da construção. Perto de uma boa nascente e quase dentro da área que hoje é mato preservado, da atual fazenda.

João Borba foi casado com Dª. Hermínia Ferraz Borba e tiveram os seguintes filhos: João Borba Filho, casado com Virgínia Eduar Robertsen Borba - moravam nos Estados Unidos, em Hyattevile; Maria Borba; Arnaldo Borba de Moraes (?); Raul Borba (faleceu solteiro); Antenor Borba.

João Borba faleceu em 22/05/1909 na fazenda.

Com sua morte, sua mulher constituiu a firma H. Borba & Filhos.

EXPANSÃO DAS TERRAS – A FORMAÇÃO DA ÁREA ATUAL DA FAZENDA ATALAIA - CONSTRUÇÃO DA SEDE

Em 01/02/1887 João Borba comprou 40 alqueires de uma propriedade rústica, na Sesmaria das Almas, na Fazenda do Rancho Queimado.

Eram proprietários e transmitentes, Ignácio Batista de Almeida e sua mulher, Dª. Ana Arcadoria de Almeida, residentes em Rio Claro, e que tinham adquirido essas terras de Germano Xavier de Mendonça. (livro de Luciana Maria Machado pgs. 28 e 29).

Em 12/04/1880 João Borba comprou uma sorte de terras de Antônio Micheli, sobre a qual, parece ter havido necessidade de muitas ações de definição de divisa e que ficou definida em 1894.

Em 11/04/1881 João Borba compra a fazenda Santa Maria de Rodolpho Augusto de Moreira e, mais uma parte de terras na Fazenda do Rancho Queimado. As divisas da fazenda ficaram de um lado com João Borba e por outro, com Dª. Maria Vaz de Arruda Ferraz e com Joaquim Carvalho de Oliveira e por outro lado com Joaquim Alves da Cruz.

Assim a Fazenda Atalaya ficou no seguinte formato:

- situação Freguezia e Distrito de Santa Lúcia;

- cerca de 600 alqueires;

– 436000 pés de café com média de produção de 35 a 40000 arrobas (arroba = @ = 15 quilos);

– 100 alqueires de pasto, 60 alqueires para plantio de cereais e 200 alqueires de mata;

- casa assobradada;

– 40 casas duplas para empregados;

- casa para residência de professora, fiscais ,e casa para o administrador

– água encanada

– jardins e instalações elétricas

– 63 muares de custeio, 44 eqüinos, jumento italiano, 165 vacas, 380 porcos.

A Sede da fazenda tinha que ficar pronta, por contrato, em l894.

João Borba primeiro construiu 20.000 m2 de terreiro, as tulhas, casa da máquina de beneficiar café e as casas dos colonos. Instalou um lavador Maravilha e l máquina de beneficiar café.

Enquanto construiu a casa da sede (que é atual) ele morava na casa isolada (eram 3 geminadas) em frente os terreiros de café. Ele ocupava 2 casas e uma sala grande onde sua mulher, Dª. Hermínia Borba, dava aulas para os filhos dos empregados.

Tudo isso foi feito com dinheiro da exportação do café.

Quanto melhor o tipo de bebida que o café apresentava, melhor era o preço. Por isso as tulhas foram construídas com parede dupla, revestidas com madeira, que deixava um espaço entre a alvenaria e a parede de madeira para melhor circulação de ar.

A casa sede foi feita por engenheiros franceses.

As telhas eram importadas de Marselha, e quando colocadas eram amarrados com arame, devido a forte inclinação dos telhados.

Todos os móveis marrons são do tempo da construção. Na sala de visitas as paredes eram decoradas com papel. Como ele estragou-se com o tempo, quando foi para trocá-lo encontrou-se uma outra camada de papel.

Quando acabou a remoção dos papeis, na parede estava o emblema da República, e uma frase “Viva a República”.

O forro da sala de visitas e da sala de jantar são de gesso trabalhado e o hall de entrada tem o teto revestido com uma massa caprichosamente trabalhada, e que emita com perfeição mármore.

Dentro da área da fazenda tinha um ramal de serviço da Companhia Paulista de Estrada de Ferro, que transportava pedras para a construção do leito da ferrovia. Ia até a estação de Tapuia.

Em 1918 foi instalada a rede elétrica, e o maquinário de beneficiar café veio da Alemanha.

O terreiro de café foi todo iluminado e a intensidade de luz era maior que de Santa Lúcia .

Os Borbas eram pessoas bastante cultas e gostavam de capricho na manutenção da fazenda.

Para ter-se uma idéia, era mantido um fiscal responsável pela limpeza nas colônias e que as galinhas deveriam ficar presas nos galinheiros. As casas tinham um bico de luz nas portas.

Em cada quadro do terreiro, tinha um poste com duas lâmpadas.  O terreiro ficava mais iluminado que a cidade de Santa Lúcia.

Mamãe, Maria Alice, chegou a ver esse aspecto.

Tivemos um empregado, José Onório, que trabalhou com Dnª Hermínia. Ele contava para Semiramis e Mamãe que, quando tinha que levar Dnª Hermínia a passeio com o troley, tinha que estar de roupa limpa, bem arrumado e bem cheiroso.

Esse empregado tinha um filho,  Argemiro, que ajudou papai, Jarbas, na criação de cavalos, pois tinha prestado serviço militar na cavalaria em Mato Grosso e tinha jeito para lidar com animais.

........ continua

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